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A Arte que Flutua pelos Rios da Amazônia

8–12 minutos

Arte ribeirinha que colore os rios da Amazônia.

Por Amanda Pantoja, Eveline Mendes e Vinicius Gonçalves | Foto: Fernanda Martins

Os barcos são um espaço para diversas manifestações. Sua versatilidade permite que sejam muitas coisas: instrumentos de sobrevivência e de resistência, e também meios de expressão de identidade e cultura. É por meio deles que uma arte centenária colore as embarcações e os rios da Amazônia: a arte dos mestres abridores de letras.

Os abridores de letras são artistas das comunidades ribeirinhas que mantêm viva a cultura popular da tipografia da Amazônia. Eles se dedicam à pintura manual e à decoração dos nomes e outros elementos visuais nas embarcações de madeira que navegam pelos rios. É um conhecimento que surge a partir da vivência na família e na localidade em que vivem. Muitos aprendem a partir da observação do trabalho de outros mestres. E daí, tornam-se eles mesmos os mestres que levarão esse saber para as próximas gerações.

Foi dessa maneira que Edivaldo Brandão, mais conhecido como “Cuca”, se tornou um abridor de letras. Ele aprendeu o ofício ainda garoto, nos portos de Igarapé-Miri, e desde então mantém viva a arte ancestral da pintura manual de letras nas embarcações que circulam nos milhares de portos da região. Atualmente, Cuca mora em Ananindeua e realiza seus trabalhos na região metropolitana de Belém. Ele se divide entre a pintura das letras em embarcações e outros trabalhos envolvendo a pintura e construção civil.

“Foi na época de moleque. Descia balando tralhudo, pulando no rio. Aí, uma certa vez, fui para dentro de uma embarcação. Conheci um senhor lá. Quando ele viu, já estava passando tinta por dentro do barco. Aí ele perguntou se eu queria trabalhar com ele. Aí eu falei que sim. Com o passar do tempo, fui me dedicando a fazer uma linha d’água, a pintar uma letra, a riscar uma letra. Quando ele prestou atenção, eu já quase tava sabendo mais do que ele”, recorda o mestre abridor de letras.

Mais do que apenas uma forma de identificar os barcos, seu trabalho, e de muitos outros, é uma rica e colorida manifestação artística, na qual cada pintura carrega a história e a identidade dos mestres abridores. Desde que Cuca passou a trabalhar como abridor, ele conta que desenvolveu um estilo próprio. “Nunca copiei o cidadão que eu trabalhava com ele, que era o Elson – que trabalha em Igarapé-Miri. Cada um tem um estilo, cada um tem uma letra, cada um conhece a sua letra e nós conhecemos a letra em cada um. Então, se a gente vê uma letra lá fora, a gente conhece de quem é aquela letra”, relata.

Através delas, eles se reconhecem e são reconhecidos em cada rio por onde os barcos passarem. Cada letra pintada carrega algo além do valor estético, elas representam o modo de viver das comunidades ribeirinhas e o saber desse ofício ancestral, que é profundamente ligado ao território amazônico. Por reconhecer essa importância, o Instituto Letras que Flutuam (ILQF) atua em parceria com os mestres para que o ofício dos abridores seja reconhecido como patrimônio cultural imaterial do estado.

O ILQF foi oficializado como instituto em 2024, o primeiro do Brasil voltado para essa cultura ribeirinha. No entanto, ele é fruto da pesquisa de mais de 15 anos da pesquisadora e designer gráfica, Fernanda Martins. Um longo processo que contou com a participação de muitas mãos, tintas, pincéis e histórias para resgatar e preservar esse fazer.

Por meio de oficinas, exposições, murais, encontros, dentre outras atividades, a tipografia amazônica vem ganhando cada vez mais visibilidade e admiração não só no Pará, mas também em diversos estados brasileiros. Jamily Modesto, representante do instituto, conta que o objetivo principal dessa parceria é fortalecer o trabalho realizado pelos abridores. “Nós buscamos a questão da importância do trabalho desses mestres. É promover cada vez mais essa cultura, esse dom que eles têm, que cada vez mais seja reconhecido”, destaca.

Essa parceria é vista por Edivaldo como algo muito valoroso e que tem permitido que o trabalho dos abridores de letras ganhe uma maior proporção, diferente do que se tinha no passado. “Hoje não está influenciando só na área naval, tá também na área civil como para lojas, não só para embarcação, mas para outras finalidades. O que era mais difícil era o apoio, que nós não tínhamos, e hoje a gente já está tendo mais apoio através do Letras que Flutuam. Já está se sobressaindo mais, hoje já está nas mídias, é uma coisa que é muito importante”, afirmou o mestre.

O avanço da tecnologia e, principalmente,o surgimento das redes sociais, proporcionaram um maior compartilhamento desse saber com mais pessoas. Segundo Edivaldo, antigamente, os mestres não tinham o costume de fotografar e compartilhar seus projetos, mas hoje, ele registra com muito orgulho seus trabalhos e criações. “Quase todos os pintores mais antigos nunca guardavam, a gente fazia mesmo aquela pintura pelo nosso profissionalismo. Eram poucos que guardavam e hoje não. Qualquer coisa que a gente faz, a gente quer filmar, a gente quer bater uma foto para guardar”, lembra o artista.

A preservação dessa arte popular, tão intrínseca à vida e à cultura ribeirinha, é essencial para a região. Para Edivaldo, é fundamental transmitir esse ofício para as próximas gerações para garantir a continuidade dessa arte e evitar que ela se perca. “Hoje nós já estamos abrindo oficina para ensinar os jovens. Eles gostam muito, é uma parte de arte. É importante passar para as pessoas mais novas, desde as crianças, adolescentes, porque com o tempo nós vamos parar, outras pessoas têm que seguir. Para isso seguir, nós temos que ensinar outras pessoas, outras crianças, ou adolescentes para que não venha a parar”, reforça o mestre.

Os abridores de letras são mais do que artistas, são guardiões de um patrimônio ancestral capaz de tornar ainda mais vivo os rios amazônicos. Com a destreza de suas mãos, eles imprimem a identidade ribeirinha, levando para além dos rios a expressão, as cores e a história de um povo que vive e se manifesta através das águas.

Navegando por outras águas

As pinturas produzidas por eles têm ganhado cada vez mais espaço e destaque no âmbito nacional, alcançando repercussão e admiração de milhares de pessoas. Tanto que essa arte produzida pelas mãos amazônidas esteve presente no tema do desfile da escola de samba Grande Rio em 2025, intitulado ‘Pororocas Parawaras’. A temática escolhida pela escola exaltou as ricas características culturais da Amazônia, em especial as do Pará, garantindo o vice-campeonato para a escola e levando a tipografia dos mestres para as das vitrines mais visadas do carnaval: a Sapucaí e as telas de milhões de brasileiros que acompanharam o desfile pela televisão e redes sociais.

Além disso, o projeto Letras que Navegam, iniciativa do ILQF, que foi patrocinado pela Caixa através do governo federal, levou os mestres abridores para oito capitais brasileiras:  Fortaleza,  Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Salvador, Belém, Curitiba e São Paulo. A ação ofertou oficinas para crianças de escolas parceiras, a realização de bate-papos para o público geral com pintura ao vivo pelos mestres abridores de letras. Os encontros oportunizaram um momento de diálogo entre os territórios sobre a arte e a cultura produzida pelas mãos ribeirinhas.

Durante a COP 30, reunião mundial da ONU que debate as mudanças climáticas, essa arte ribeirinha também se faz presente através de diversas atividades, e em pontos estratégicos da cidade. No final de outubro, mais de 20 mestres de diversos municípios paraenses deram vida a um mural com cerca de 600 metros na Avenida Júlio César, as pinturas que imprimem no muro a diversidade da fauna e flora da Amazônia, demonstram o talento daqueles que cotidianamente colorem os rios da região. 

Na Green Zone, área da reunião aberta à participação do público, também há programação, aqueles que visitarem o espaço Brasil Bio Market, podem adquirir o livro ‘Letras Que Flutuam’. A obra foi escrita por Fernanda Martins, idealizadora do ILQF, e é resultado de um processo construído coletivamente entre os pesquisadores e centenas de abridores de letras. Um registro que contribui para salvaguardar essa cultura e um tributo aos artistas que mantêm essa tradição viva. 

Outro espaço de visitação é o Canto das Letras, localizado na Tv. Rui Barbosa, 257 – loja Prana Tropical. O local foi pensado para ser o ateliê de diversos mestres abridores de letra da Amazônia durante a COP 30, onde o público tem a oportunidade de encomendar uma placa com a palavra desejada e acompanhar o processo de produção dos abridores de letras, um momento único de troca e interação entre os mestres e os visitantes.

Cuca ressalta a importância da existência de novos espaços que a arte vem alcançando. “Hoje nós temos um espaço muito bom para apresentar nosso trabalho, que foi uma arte que veio do nosso dom próprio, nosso conhecimento próprio. É muito maravilhoso a gente poder mostrar  a nossa arte”.

Segundo Jamily, o Canto do Letras é um espaço que possibilita aos visitantes uma maior interação com os mestres, o compartilhamento  das histórias de vida que eles carregam e traduzem por meio de suas pinturas. “Cada letra tem uma história, cada abridor tem a sua história. E o canto do Letras hoje, esse espaço que foi montado aqui, é justamente para isso, para que as pessoas, não digo só do Pará, mas quem estiver aqui na cidade, possa conhecer um pouco a história de cada abridor. Como foi que ele conquistou tudo aquilo, como ele aprendeu, a história de vida de cada um deles mesmo, conhecer um pouco mais do instituto”, reforçou.

A paraense Jennifer Leite esteve no local e pode vivenciar um momento de troca muito especial com o abridor Edivaldo. Ela conta que já buscava alguém que produzisse a tipografia, e que, por um encontro ao acaso, conseguiu ter o contato direto com um dos artistas responsáveis por essa arte. “Eu acabei vindo parar aqui por engano, mas não foi engano, foi um ganho. Vim para ver o Instituto Chico Mendes, aqui do lado, e acabei ganhando um presente que foi conhecer o seu Cuca. Ele compartilhar um pouco desse conhecimento ancestral nosso, dessa arte regional que é de extrema importância”, afirmou.

Para Cuca, é maravilhoso ver a admiração que as pessoas têm pelo trabalho dos abridores. “Nós que estamos no trabalho, fazendo as nossas letras, para nós é uma coisa comum, mas para as pessoas que vêem, é acho uma coisa maravilhosa. É muito importante, de grande importância”, finaliza.

A programação também conta com a apresentação do documentário ‘Marajó das Letras’, que será exibido nesta terça (18), às 17h, na Casa Pará – En Zone, localizada no Estacionamento do Porto Futuro I. A filmagem foi dirigida por Fernanda Martins e Sâmia Batista como resultado da segunda etapa do projeto, que hoje é instituto. A produção registra o fazer dos mestres abridores do Marajó, que utilizam de técnicas tradicionais e modernas para imprimir seus estilos de pintura nas embarcações da região do arquipélago.

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