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Bioeconomia na Amazônia: os saberes que movimentam a renda dos feirantes no Ver-o-Peso

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Nilda Goes, dona do “Point da Cachaça de Jambu”, no Ver-o-Peso. Foto: César Vieira.

Atrativos do amor, ervas amazônicas, banhos de cheiro, geleia de cupuaçu, cachaça de jambu e licor de açaí são alguns dos produtos regionais que mais movimentam a bioeconomia de Belém do Pará. No mercado do Ver-o-Peso, considerada a maior feira a céu aberto da América Latina, muitas histórias de feirantes que sustentam suas famílias, por meio da venda desses itens naturais, transitam pelos corredores e boxes deste espaço cultural que respira conhecimentos ancestrais.

Nos corredores do mercado, esses saberes perpassam por meio da bioeconomia, que é um modelo econômico que utiliza recursos renováveis, de forma sustentável, com o propósito de gerar produtos e serviços. Nesse cenário, o documento “Visões sobre bioeconomia na Amazônia”, publicado pela Embrapa em 2023, aponta que a discussão sobre o potencial da bioeconomia para o desenvolvimento sustentável da Amazônia está crescendo cada vez mais, setor que inclui a produção de fragrâncias e cosméticos, como os que são comercializados nas bancas do Ver-o-Peso.

Segundo informações do estudo “Nova Economia da Amazônia”, lançado em 2023, feito pela World Resources Initiative Brasil (WRI), em parceria com diferentes instituições de pesquisa, a bioeconomia se mostra um setor promissor na região, com projeções que indicam a possibilidade de gerar 833 mil empregos e atingir R$ 38,6 bilhões na Amazônia até 2050. Embora esses números apontem para um cenário futuro de crescimento, a comercialização de produtos naturais e saberes tradicionais amazônicos já sustenta a atividade de muitos empreendedores e empreendedoras em Belém, como é o caso de Nilda Goes e Raimundo Alexandre, que possuem espaços de vendas diferentes na feira do Ver-o-Peso.

“Os produtos que mais saem aqui na minha barraca são cachaça com jambu, geleias de cupuaçu, geleia de bacuri e açaí.”

Para Nilda Goes, dona do “Point da Cachaça com Jambu”, a sustentabilidade está presente em vários itens de sua barraca, mas alguns possuem a habilidade de gerar mais lucro entre os paraenses, como a própria cachaça de jambu. “Aqui na minha banca é o jambu. Na verdade, cachaça com jambu. Os produtos que mais saem aqui na minha barraca são cachaça com jambu, geleias de cupuaçu, geleia de bacuri e açaí. Temos o licor de açaí e a cachaça de açaí da Indiazinha”, explicou Nilda Goes.

A ancestralidade como fonte de renda para os trabalhadores do Ver-o-Peso

No mercado que fica às margens da Baía do Guajará, os feirantes utilizam da originalidade, inovação e criatividade para fazer suas vendas diárias que, para Nilda e Raimundo, esse movimento caracteriza-se como a única fonte de renda que leva o sustento às suas residências. “Essa é a minha renda, meu trabalho. Por enquanto é minha única renda. Esses produtos são revendidos, eu compro normalmente com os fornecedores no depósito (…) Eu tenho Gin Tropical, tenho as cachaças mix da Jambucida, da marca Meu Garoto, licor de bacuri”, ressaltou Nilda. 

Com uma realidade semelhante, o feirante Raimundo Alexandre também compartilha das mesmas oportunidades que a bioeconomia pode gerar em sua casa. “A minha renda é essa aqui. Com essa venda, eu criei meus filhos, comprei casa, comprei carro, troquei de carro. Vivo e sobrevivo de uma banda de um metro quadrado”, revelou Raimundo, dono da barraca número 10 de ervas do Ver-o-Peso.

Seu Raimundo Alexandre, dono de box de ervas e banhos no Ver-o-Peso. Foto: César Vieira.

No entanto, ainda segundo Raimundo, a geração de renda para o sustento de sua família é possível apenas pela reprodução dos conhecimentos ancestrais repassados de geração a geração por diversas famílias, que são relacionados aos remédios e artigos naturais que ele costuma comprar de produtores da Região Amazônica. “Tudo que temos aqui é conhecimento ancestral. Quase todos os produtos são produzidos aqui, aqui no Pará, outros vem do Baixo Amazonas e da região de fora. Mas todos são produtos da Amazônia”, complementou Raimundo, que trabalha há 36 anos no mercado.

A riqueza e a biodiversidade dos produtos fazem sucesso entre os turistas

Além de movimentarem a bioeconomia no mercado do Ver-o-Peso, os itens e produtos regionais também ajudam a atrair amores, prosperidade, dinheiro, e até curar doenças com ervas específicas da Amazônia. “Olha, eles vêm procurar um atrativo, que nem esses banhos, uma garrafada, xarope. Aliás, eles procuram para qualquer tipo de doença que eles têm, e nós temos tudo aqui”, enfatizou Raimundo Alexandre.

Somados ao significado espiritual das plantas medicinais e ao poder atrativo dos banhos de cheiro, a curiosidade e a busca por experiências típicas da Amazônia também estão entre os fatores que atraem turistas ao Ver-o-Peso. Nilda Goes destaca, por exemplo, o interesse despertado pelas propriedades sensoriais do jambu. “Diariamente eu recebo muitas dessas pessoas. Normalmente quem vem de fora, vem à procura de sentir essa sensação que o jambu causa, que fica em nossa boca quando experimentamos”, conta a empreendedora.

E, entre tantos estandes e barracas do mercado, a possibilidade de degustação torna-se essencial nas vendas do dia a dia. “Sempre perguntam se tem como degustar, eu digo que sim. Se eles degustarem, com certeza eles levam. Eu quis transformar tudo na minha banca relacionado ao jambu, porque as pessoas que vêm de fora querem sentir essa sensação que é falada no mundo”, finalizou Nilda.

Diante desse cenário, a cachaça de jambu, a geleia de cupuaçu e outros produtos regionais não são apenas itens comercializados no Ver-o-Peso. Mais do que mercadorias, eles carregam saberes ancestrais, tradições e modos de vida que atravessam gerações na Amazônia. Ao despertar a curiosidade de visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo, esses produtos fortalecem a bioeconomia local e garantem o sustento de inúmeras famílias de feirantes, que mantêm viva a relação entre cultura, floresta e desenvolvimento sustentável. 

Geleias de sabores amazônicos. Foto: César Vieira.


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